Capítulo 2 – Fardo Invisível

Naquele dia, depois do meu encontro com Vicky e suas amigas, eu fiquei rindo de mim mesmo, pensando no acontecido. O que elas queriam? Eu me achei meio ridículo com aquilo tudo; no final, acabei me divertindo e pensei: como deve ser boa a vida de quem parece não levar tudo tão a sério.

Foi essa a impressão que elas me deram: que estão por aí, sem responsabilidades. Imagine voltar, àquela hora, para casa? Quer dizer, nem sei se realmente voltavam para casa. O fato é que, quando me viram, pensaram que eu fosse igual a elas; e, quando perceberam que — como a Vicky me disse um dia — eu era apenas mais uma engrenagem do sistema, me menosprezaram.

Quer dizer, a Vicky não. Ela ficou em dúvida. É difícil saber o que se passa na cabeça dela exatamente. Aquilo consumiu minha atenção pelo resto do trajeto até o trabalho; eu até tinha me esquecido da inspeção, até que finalmente cheguei ao meu destino.

Estou agora caminhando pelo distrito industrial. As ruas estão desertas; para falar a verdade, prefiro assim. Posso ficar a sós com meus pensamentos — isso me acalma e me deixa focado no que está por vir.

Passamos por essa inspeção a cada quatro meses, mas, por um problema de agenda, o inspetor não veio nas últimas quatro vezes. Isso significa que faz mais de um ano que não recebemos uma visita como essa, o que nos deixa apreensivos, pois não temos ideia do que esperar.

Estávamos todos muito aflitos esperando essa inspeção; eu não conseguia pensar em outra coisa. Mas o encontro com a Vicky e as amigas no ônibus me distraiu um pouco. Andando agora por essas ruas, minha atenção ficou difusa até que me deparei com a fábrica.

Trabalho aqui há mais de cinco anos. Quando comecei, fiquei muito satisfeito: não há muitos bons empregos hoje em dia — não que este seja bom, mas, comparado com os que eu tinha antes, era muito melhor. O salário era razoável e havia possibilidade de crescer na empresa — o que, de fato, ocorreu comigo: entrei no cargo mais simples e consegui avançar na equipe.

Trabalhamos com siderurgia e metalurgia. Produzimos as matérias-primas que serão utilizadas na fabricação de veículos a drones. Nosso maior cliente é o governo, que compra nossos produtos para uso militar. Por isso, quem entra e se adapta ao trabalho dificilmente sai: temos muita estabilidade no emprego, e a empresa precisa de empregados em quem realmente confia.

Por essa necessidade de confiança, a maioria dos trabalhadores é mais velha; eu sou um dos poucos novatos por aqui. Tive sorte de me adaptar bem ao trabalho e à equipe, e me destaquei muito até me tornar encarregado de seção. Quando recebi essa designação, alguns me chamaram de tenente, mas os mais velhos disseram que eu era jovem demais para isso e começaram a me chamar de Cabo. O apelido pegou de tal maneira que mal reconheço meu nome quando me chamam por ele.

— Ei, Cabo, que bom que você chegou! Queria tirar uma dúvida com você. 

— Bom dia, Freitas. Como posso ajudar?

Então o Freitas me levou até uma das máquinas em que fizemos manutenção nos últimos dias e eu o ajudei a conferir os ajustes que realizamos. A tensão pela chegada do inspetor era visível no rosto de todos. Em meio a toda aquela atmosfera de medo, olhei para a mão e vi o endereço anotado pela Vicky. Me distraí totalmente e comecei a imaginar o que encontraria naquele local — até que uma voz me despertou do devaneio.

— Gente, o inspetor Milon chegou ao prédio! — disse um dos novatos que fazia a vigília para o restante da equipe. 

— Valeu, Camundongo. Agora vá para sua posição, conforme planejamos ontem — ordenou Nogueira, com autoridade. 

— Cabo, contamos com você para que tudo saia como planejado — Nogueira dirigiu-se a mim com firmeza. 

— Fiquem tranquilos; estamos preparados. Foquem em suas funções — não há motivo para nada dar errado.

Nogueira é o funcionário mais velho e experiente do nosso setor. Só não ocupa meu posto porque, apesar de ter muito conhecimento, tem pouca escolaridade — tudo o que sabe veio da prática de anos, e a diretoria não achou que ele devesse estar em posição de comando. No entanto, sua importância era inegável: mesmo em cargo “menor”, ele recebia um salário maior que o meu — que, no fundo, era o que realmente importava.

Comecei a dar instruções gerais a cada funcionário sobre como proceder em cada demonstração para o inspetor. A ansiedade só aumentava — até que, enfim, vimos o diretor da fábrica, Anísio Santos, vindo acompanhado do inspetor.

— Bom dia a todos! Quero apresentar o inspetor Milon Geu Marques, que nos honra com sua presença hoje para realizar a inspeção de rotina — disse Anísio.

O diretor era simpático: conseguiu formar, ao longo dos anos, uma equipe de funcionários fiéis e competentes. Houve momentos de turbulência, mas, no final, ele criou um ambiente propício à colaboração de todos. Esse êxito se deveu também ao fato de ter vindo do chão de fábrica e conhecer as necessidades e desafios locais, o que fez desta unidade uma das mais produtivas do país e lhe trouxe liberdade para conduzi-la sem grandes ajustes — até por isso estávamos sem inspeção há tanto tempo.

— Obrigado pela apresentação, Anísio. Agora, sem mais delongas, podemos começar a inspeção? 

— Claro. Quero apresentar o responsável por este setor. Cabo, apresente-se, por favor. 

— Sim, senhor. Senhor inspetor, eu sou Cabo, responsável pelo setor 12. O senhor pode me acompanhar?

— Cabo? Isso é uma patente? — perguntou o inspetor, confuso. 

— Não, senhor; é como me chamam aqui — respondi naturalmente. 

— Isso é uma piada? Que tipo de nome é esse? Como coloco isso no meu relatório? — disse o inspetor, perdendo a paciência. 

— Milon, fique tranquilo. Nos registros oficiais da empresa, temos nome e apelido dos funcionários, tudo rastreável no sistema. 

— Não entendo como permite isso no seu quadro de funcionários, Anísio. 

— Senhor, com sua permissão, isso aumenta o moral da equipe: temos nossa própria identidade, criada por nós mesmos — tentei explicar. 

— Ridícula essa sua afirmação. Sinceramente, espero que o que tenha para mostrar seja mais consistente do que essa situação absurda — retrucou ele, em tom audível em todo o setor.

Olhei em volta e notei, nos olhos da equipe, que a apreensão inicial agora se transformara em medo de falhar. Respirei fundo e disse em voz alta:

— Minha equipe é a melhor desta fábrica, o que significa que ela também é a melhor do país.

— Veremos… — resmungou o inspetor.

Prosseguimos pelo setor, máquina por máquina, funcionário por funcionário. Eu explicava o funcionamento, falava sobre manutenção; depois, o funcionário realizava a demonstração. Discutíamos números: o realizado até então e as metas para o final do ano.

Milon anotava tudo sem demonstrar qualquer expressão. Também não fazia perguntas, então não sabia se compreendia ou se estava tudo certo. Até que chegamos à máquina do Camundongo.

Camundongo era o novato mais jovem de toda a fábrica. Passou por vários setores, sendo deslocado de um a outro até chegar ao meu — era sua última chance de se firmar; se não houvesse escassez de mão de obra jovem, ele já estaria fora. Consegui treiná-lo com muita paciência, dedicando mais tempo do que o de costume. Se não tivesse o respeito da equipe, teria enfrentado resistência, mas, no fim, todos entenderam que era uma questão de companheirismo e o adotaram como “mascote” da equipe.

Ele aprendeu a trabalhar bem, mas ainda era inseguro sob pressão; o comportamento do inspetor não ajudou. Quando chegamos à sua máquina, ele conseguiu fazer uma boa apresentação — até que o inspetor interrompeu a demonstração, pegou o crachá e perguntou:

— Camundongo?  Esse é o seu nome??? _ perguntou o inspetor estarrecido

— Sim senhor, quer dizer não senhor … eu … eu…

Foi abruptamente interrompido:

— É um absurdo confiar a operação de uma máquina de milhões a um pivete chamado Camundongo _ disse olhando para mim.

— Não entendo aonde quer chegar, inspetor. O nome dele diz algo sobre sua capacidade? 

— Diz — e diz muito: diz sobre a seriedade dele e sobre a sua — você, que sequer é conhecido pelo nome e permite que seus comandados façam o mesmo. É assim que começa a anarquia: cada um faz apenas o que lhe agrada, sem cumprir leis ou convenções, apenas a própria vontade. — disse com furor

— Sinceramente, nem vimos ele trabalhar ainda; como pode avaliá-lo? E, quanto ao resto, não posso opinar — apenas faço meu trabalho. 

— Certo, então, Cabo — disse ele, sarcástico — vamos ver o que seu Camundongo pode fazer. — disse me desafiando

Não percebi, na hora, que era tudo uma armadilha: ele literalmente armou uma ratoeira para pegar o Camundongo. Quando olhei para o novato, ele estava pálido, com olhos arregalados, pedindo socorro — mas já era tarde demais.

Ele retomou a demonstração… Foi um desastre total. Mal conseguia executar os comandos. Percebi, pela primeira vez, um olhar de satisfação no inspetor. Após alguns segundos de silêncio, ele exclamou:

— Agora você vê? Como ele é incapaz de assumir essa tarefa? É inaceitável que isso permaneça assim, compreendido? 

— Olha aqui! Primeiro ele estava fazendo tudo corretamente até você implicar com seu nome. Segundo, isso ainda é decisão minha, não sua.

— Você me desafia? Com quem você acha que está falando?

— Digo que ele é membro valioso da minha equipe — e assim permanecerá. 

— Acho que não entendeu o que vim fazer aqui. Eu determino quem está certo e quem está errado; eu decido, entendeu? 

— Pensa que somos idiotas? Todos vimos o que fez: viu que tudo estava em ordem e desestabilizou alguém da minha equipe para achar algo errado.

— Como ousa duvidar da minha idoneidade? Tenho um relatório a fazer com base no que vi, e o que vi é lamentável, senhor Cabo…

_ É ? Eu também tenho relatórios; não se baseiam em uma demonstração, mas na produtividade dos últimos 14 meses. Você deveria ter vindo aqui ao menos quatro vezes. Devemos levar isso à cúpula nacional da empresa? — perguntei, furioso.

— Ei, pessoal, vamos acalmar os ânimos, ok? — interveio Anísio. 

— Eu não vou aceitar essa afronta, Anísio.

— A que afronta se refere, Milon? No meu entender, Cabo apenas lhe deu nova perspectiva para seu relatório, não é mesmo? — disse Anísio, habilidoso; fez o inspetor entender que não prejudicaria ninguém.

— Mas isso não pode ficar assim: alguém precisa ser responsabilizado — quase suplicou o inspetor. 

— Claro, será resolvido. Alguma sugestão, Cabo? — Anísio olhou nos meus olhos. 

— A responsabilidade pela falha é minha, Anísio; se alguém precisa ser punido, sou eu — afirmei resolutamente. 

— Providenciarei isso oportunamente. Vamos, Milon, você tem outros setores para inspecionar.

Milon lançou-me um olhar derrotado e saiu; Anísio saiu sorridente, querendo que ele esquecesse tudo aquilo.

Enquanto se afastavam, observamos até sumirem do setor. Então desabei: sentei num canto e senti o peso do mundo sobre mim.

Meus colegas vieram rápido para socorrer-me e me consolar.

— Você foi muito corajoso, Cabo. Mostrou a todos que se importa com a equipe e não está aqui para ser feito de idiota — disse Nogueira, eloquente. 

— Verdade, Cabo; todos vimos que ele mexeu com o moleque de propósito — acrescentou Freitas, consolando-me. 

— Valeu, gente. Espero não me arrepender disso.

Camundongo estava arrasado, mal conseguia me olhar, veio devagar até mim e me disse aflito.

— Me desculpe, Cabo. Eu sabia o que tinha que fazer, mas ele me humilhou daquele jeito… Eu esqueci tudo; não conseguia pensar direito, minhas mãos tremiam… Eu sinto muito mesmo.

Ele começou a hiperventilar e mal conseguia falar; os outros o afastaram. Eu também, naquele momento, não consegui dizer nada.

Então tomou conta de mim um medo enorme. Meu trabalho me definia e guiava minha vida; agora tudo estava em risco por uma atitude impensada. Senti que coloquei tudo a perder. Vi Anísio voltando ao setor sozinho. Levantei-me rapidamente; todos ficaram atentos ao que viria. Dirigi-me a Anísio:

— Senhor, quero me desculpar pelo ocorrido e… 

Anísio interrompeu: 

— Cabo, sente-se, por favor.

Sentei-me, temeroso. Então Anísio continuou:

— Você defendeu sua equipe de um claro abuso do inspetor. Contudo, sua coragem tem um preço: vou ter que suspendê-lo por uma semana. 

— Anísio, isso é um absurdo; você mesmo disse que o inspetor abusou de sua autoridade — protestou Nogueira, furioso. 

— Calma, isso é para proteger vocês. Posso transformar a suspensão em licença remunerada: o Cabo não será prejudicado, mas acho importante que tenha esse tempo, pois o inspetor retorna na semana que vem, e é melhor não se encontrarem novamente. 

— E se ele pedir minha demissão? Como vou saber que já não fez isso e o senhor está tentando minimizar?

— Ele não pode. Temos registros sólidos da operação; a inspeção dele não se sobrepõe a eles — tranquilizou Anísio. — Você fez o certo, garoto; estou orgulhoso de você, mas preciso protegê-lo. Alguns dias de folga vão lhe fazer bem. 

— Está certo… O que faço então? 

— Venha comigo: você vai assinar a licença, e eu adianto o dinheiro, como se fosse uma antecipação de férias — disse ele calmamente.

Despedi-me da equipe; todos tinham olhar preocupado. Fui com Anísio ao RH, onde assinei papéis para tirar dez dias de férias. Assim que o dinheiro foi depositado na minha conta, fui para casa sem saber se realmente voltaria para o meu trabalho.


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