Capítulo 3 – Luzes em meio ao Blackout

Eu estava atordoado ao sair da empresa; nunca imaginei viver algo assim. Andando meio sem rumo pela cidade, decidi não voltar para casa — eu não saberia o que fazer. O ramo em que trabalho não é conhecido por tempo livre, nem por férias prolongadas. Na verdade, eu não tirava férias há anos e nem sabia o que fazer quando estava de licença. Meu trabalho me definia e, agora, que eu tinha folga, sentia-me completamente perdido.

O dia passou e a noite chegou. Eu estava exausto, não apenas fisicamente — havia dormido muito pouco na noite anterior para chegar mais cedo e me preparar para a inspeção na fábrica.

 Mas eu estava mais cansado mentalmente. Não conseguia parar um minuto de pensar em tudo o que tinha acontecido e em como aquilo poderia me destruir. O inspetor jamais esqueceria o que fiz; cedo ou tarde, ele me procuraria uma maneira para me prejudicar. Senti-me estúpido ao pensar que poderia e deveria ter o enfrentado daquela maneira. Agora sentia um medo desesperado de que ele arruinasse minha vida, e que eu não poderia sequer me defender, quanto mais revidar de alguma forma.

 Esse medo me consumia por dentro. Sentindo-me tão impotente e pequeno — eu, que achava ter um lugar no mundo —, vi tudo desabar diante de mim por causa de um mero gesto de um homem que nem ao menos compreendia seu poder de destruição.

 Passei o dia inteiro remoendo tudo que poderia ter feito de diferente. Imaginei o que faria dali em diante para me salvar, caso o pior cenário se concretizasse.

Em um desses momentos, olhei para a mão e vi os rabiscos que Vicky havia feito: um endereço e o nome Blackout Lab. Quando li aquilo, suspirei fundo, pensando que talvez ali encontrasse algum consolo. Eu não fazia ideia do que realmente me aguardava naquele lugar. Minha mente se desviou da fábrica e começou a fantasiar. Encontraria Vicky lá? Ela me receberia bem? Poderia me ajudar? Eram algumas das muitas perguntas que me angustiavam. Eu só queria que tudo tivesse sido diferente e que não me sentisse tão pequeno. Precisava de alguém que dissesse “vai ficar tudo bem”. Mas essas pessoas eram as que deixei na fábrica — não tinha amigos fora do trabalho. Éramos uma equipe, confiávamos uns nos outros, mas apenas em serviço. No fim das contas, estava sozinho, e pensar que encontraria apoio naquele bar me deu uma esperança inesperada.

Comecei a me dirigir até o endereço. Não tinha certeza de onde ficava, mas sempre achei qualquer lugar nesta cidade. Andei por becos e vielas que lembravam da cidade nova. A realidade é que bairros como o meu — e muitas outras partes da cidade — sofrem as mesmas mazelas que nós, por isso fico um pouco inseguro por aqui, sabendo que minha presença poderia incomodar alguém.

Então tento ser ou mais discreto possível, algo natural para mim, sendo morador de um bairro muito semelhante, me acostumei a andar pelas sombras, me acostumei a ser uma sombra. Caminhei cabisbaixo para não parecer ameaçador, e olhando para todos os lados atentamente para não ser surpreendido, até chegar ao endereço e finalmente encontrar o bar.

Parecia um galpão abandonado, rústico e mal cuidado, cheio de pichações e palavras de ordem. O letreiro, porém, estava em melhores condições que o resto da fachada: “Blackout Lab”, em letras enormes e vermelhas. Na porta, um anúncio de neon rosa indicava que o local estava aberto. Era curioso pensar que, sem esse letreiro, alguém poderia imaginar que o bar estivesse desativado, tamanho o desgaste e o descuido.

Entrei e me surpreendi de novo: o interior estava ainda mais destruído que o exterior. Havia paredes pichadas e em avançada deterioração, buracos nas paredes, mesas velhas e instáveis, piso esburacado, fiação exposta, vergalhões à mostra — tudo demonstrava a insalubridade do local. Era o oposto do que eu conhecia na fábrica: lá, tudo era perfeitamente alinhado, mesmo sendo bruto e gigantesco. Cada peça tinha seu lugar, cada padrão era mantido com rigor, limpeza e organização.

 Ver tudo assim foi um choque, quase igual ao impacto do público que frequentava o lugar. Ao conhecer Vicky e suas amigas, imaginei que fossem punks; mas, ao ver um bar lotado deles — com os mais variados estilos e vestimentas —, fiquei realmente impressionado. Eu não pertencia àquele ambiente, mas, estranhamente, ninguém se incomodou com minha presença. Apesar de ser claramente um forasteiro, ninguém pareceu ligar.

Eles continuavam suas conversas, bebendo e curtindo música, enquanto eu vagava pelo espaço, procurando Vicky. Confesso que não ser enxotado — ou sequer notado como intruso — me deixou confuso, mas ao mesmo tempo confortável. Em poucos minutos, já não fazia diferença para mim não pertencer. O Blackout Lab era maior do que eu imaginava, com vários ambientes semelhantes, e estava lotado. Depois de alguma dificuldade, finalmente encontrei Vicky e suas amigas: Drika, de cabelos curtos e batom prateado; e Stella, com cabelos um pouco maiores e visual jeans.

As três conversavam animadas em uma mesa; lembrei da cena no ônibus pela forma como repetiam a mesma dinâmica. Só que, desta vez, demoraram mais para notar minha presença. Não consegui me aproximar diretamente, então permaneci em seu campo de visão até que percebessem minha presença. Eu temia ser ignorado — era o que mais me preocupava.

Quando finalmente ergueram os olhos, ficaram atônitas, olhando para mim como no ônibus. Mas, desta vez, fui eu quem se aproximou.

A cada passo, meu coração acelerava. Foram poucos segundos até chegar à mesa, mas pareceram uma eternidade. Minha perna tremia, mas caminhei com firmeza para mostrar minha determinação, apesar do nervosismo.

Assim que cheguei, tentei falar algo, mas hesitei. Então, Stella falou primeiro:

— Pois é, “Ratinho”. Agora você me deve cem contos.

Perguntei, confuso:

— Como assim?

— É isso mesmo: por sua culpa perdi uma aposta com a Vicky — disse ela, sorrindo maliciosamente.

— Vocês fizeram uma aposta sobre mim?

— Não liga não, “Ratinho”. Stella só quer brincar com você— disse Drika, sorrindo.

— Vocês podem parar com esse negócio de “Ratinho”? Não sou tão ingênuo quanto pensam — respondi, tentando manter a dignidade.

— Ele tem razão, parem com isso — sentenciou Vicky —, eu avisei vocês que ele viria.

— Tudo bem, ele veio até aqui, mas sabe por que veio, ou apenas seguiu o queijo no final do labirinto — Provocou Stella.

Quis responder à altura, mas ela tinha razão, eu não sabia o que eu estava fazendo ali, e nem o que procurava, mas não queria que elas soubessem disso, preparei uma resposta, quando Vicky interveio:

— Não é justo com ele essa provocação. Afinal, não estamos sempre procurando nosso lugar no mundo? Sabemos mesmo o que queremos e por que queremos? Para mim, o importante foi que ele teve coragem de vir até aqui.

Stella fez cara de aceitação e se voltou para mim:
— Tá bom, então. O que você quer de nós?

Eu não estava preparado para a pergunta, mas saiu uma resposta instantânea, honesta e poderosa:
— Eu preciso de amigos.

A frase caiu como uma bomba na mesa. As três se olharam, com certo pesar. Então, Drika se levantou:

—  Vicky, preciso ir preparar as coisas; te vejo no palco — disse ela, lançando um olhar penetrante para Stela que entendeu e respondeu rapidamente:

—  Espera, eu vou com você.

As duas saíram da mesa e me deixaram a sós com Vicky. Não era o que eu esperava e não entendi o gesto: será que não queriam minha amizade? Pensaram que eu tinha outro interesse? Fiquei ali, sozinho, e minhas palavras vieram antes do raciocínio:

— O que foi isso? Por que saíram assim? O que elas têm contra mim?

Vicky sorriu, suave:
— Calma, não foi nada. Vamos subir ao palco em breve. Drika foi passar o som; normalmente eu ajudaria, mas ela entendeu que você precisava conversar — e fui eu quem te trouxe até aqui.

—  E por que me chamou?

—  Mais importante que isso: por que você veio?

—  Aconteceu algo na fábrica, que está me torturando. Precisava falar com alguém, mas só converso com gente de lá. Então lembrei de você.

— Sinto muito. O que aconteceu, exatamente?

—  Resumindo: enfrentei um inspetor que pressionou um garoto para deixá-lo nervoso e fazê-lo falhar numa demonstração. Agora sinto que meu emprego está em risco; e tudo o que tenho é meu trabalho. Sem ele, não sou nada.

—  Olha, pode ser que não ajude muito o que vou te dizer agora, mas eu não te conheço direito e já posso afirmar: você é muito mais que seu trabalho.

—  Por que diz isso?

—  Porque é verdade.

—  Gostaria de entender o que você vê em mim, que nem eu consigo enxergar — falei.

—  O que despertou meu interesse é o que eu não vejo em você. Você acha que veio aqui me procurar porque as coisas deram errado no seu trabalho, mas a verdade é que você viria aqui mesmo que fosse promovido.

—  Por que você diz isso?

—  Porque te falta vida. O que você tem hoje, seja sucesso ou fracasso, é só uma sucessão de eventos sem sentido e que te aprisiona. Você vive uma mentira, e a mentira é sua salvação.

Após uns instantes me olhando ela continuou:

— Eu preciso ir agora. Fica para o show, depois conversamos — disse ela, levantando-se e seguindo para o palco.

Fiquei hipnotizado por suas palavras. Instantes depois, Stella voltou e disse, gentil:

—  Que bom que vai ficar para o show. Você vai ver como elas arrasam.

 Assenti com a cabeça. Logo, Vicky assumiu o microfone:

—  Boa noite, pessoal! Como nossa primeira música, vamos cantar um grande sucesso do passado, há muito tempo esquecido. Infelizmente o nome da banda e a letra originais se perderam, mas sei que essa música fala muito dos nossos dias e fala muito comigo. Espero que fale com vocês também — Nessa hora ela olhou diretamente para mim.

—  Então, vamos lá galera, “Independência”.

 O público se agitou e começou a gritar. Elas iniciaram a canção:

Toda essa curiosidade
Que você tem pelo que eu faço
Não vou te explicar
Não preciso me explicar

Tenho essa intensidade
Que me dá identidade
Mas não vou te explicar
Não queremos te explicar

Então claro que te pergunto
Qual a razão pra viver assim?
Se não estamos de verdade juntos

Lutamos por independência
Queremos uma distância entre nós
Lutamos por independência
Queremos uma distância entre nós

Toda essa falsa verdade
Que você tem sempre nos contado
Nós conseguimos nos afastar
Aprendemos a rejeitar

Uma vida pela metade
Que gera essa imensa vontade
Que não sabemos explicar
Que nós queremos saciar

Então claro que te pergunto
Qual a razão pra viver assim?
Se não estamos de verdade juntos

Lutamos por independência
Queremos uma distância entre nós
Lutamos por independência
Queremos uma distância entre nós

A reação do público a cada verso que saía da boca da Vicky era alucinante. Não era apenas uma música — era um manifesto que contagiou todo o ambiente. No final, todos começaram a gritar uma coisa que não entendi direito, algo como monque, não consegui discernir. De repente, Stella olhou para mim e exclamou:

—  Ela é incrível, não é? Cara, você tem muita sorte.

— Eu? Sorte ? Por quê? — respondi.

Stella se levantou e começou a gritar junto com o público, contagiada pela energia. O show continuou, e eu fiquei ali, esperando as respostas que precisava — respostas que vieram de formas que jamais imaginara.


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