Mon Key!! Mon Key!! Mon Key!! Mon Key!! Mon Key!! Mon Key!! gritava o público sem parar, numa reação catártica. Estavam todos enlouquecidos, e eu mal sabia o que tinha acontecido de fato. Mas percebia que algo dentro de mim havia mudado. A música, os versos, a reação do público: tudo aquilo me impactou de uma maneira que não sei dizer, mas queria entender.
Passados alguns minutos, Vicky finalmente terminou de cumprimentar todos que a parabenizaram pelo show e veio em minha direção. Eu também estava em pé, na fila para falar com ela, então ela fez um gesto com as mãos e sentamos à beira do palco.

—E aí? Gostou? —perguntou Vicky.
Eu não sabia o que dizer, porque não era apenas gostar, foi mais profundo que isso, e a pergunta me pegou tão despreparado que a minha resposta não representava o meu sentimento real, foi apenas uma reação a pergunta dela.
—Claro, foi … instrutivo —falei sem jeito.
—Instrutivo? Taí algo que nunca disseram da minha música —respondeu, confusa, mas divertindo-se.
—Desculpe, mas não é meu ambiente, nem sei como me comportar aqui —confessei.
—Entendo o que quer dizer. Mas quero que saiba que você é bem-vindo aqui, do jeito que é. Então fique à vontade; ninguém espera que você se adapte a algo que não queira. Aqui você é livre.
Livre… Fiquei muito tempo pensando sobre isso. Porque, apesar de todas as regras —sejam as do meu bairro ou as da fábrica—, nunca me sentira preso, mesmo submetido a normas rigorosas e altamente fiscalizadas. O fato é que, naquele momento, mesmo contrariado, comecei a entender por que a Stella me chamou de “ratinho preso no labirinto”.
Eu estava tão concentrado em encontrar o “queijo” que não percebia as muralhas que não apenas me prendiam, mas também guiavam meus passos. O que eu pensava serem minhas escolhas, na verdade, eram apenas decisões entre opções que me eram dadas por outras pessoas muito acima de mim, sobre as quais eu sequer imaginava quem eram. Eu jogava um jogo cujas regras não conhecia e no qual jamais seria o vencedor. Perdi-me em meus pensamentos até que ela quebrou o silêncio novamente.
—Tá tudo bem? Falei algo errado? —perguntou ela.
—Não… É que você me fez pensar em tantas coisas que… Ah! Deixa pra lá.
—Olha, não pensa demais, ok? Viva o momento. Apenas aproveite; você está sob muita pressão e preocupação. Tenta esquecer isso um pouco.
—Sei lá… Quando olho para você, fico inseguro com minha vida.
—Por quê?
—Sei lá… É tão diferente. Eu penso em trabalho, você em liberdade. Eu penso em cooperação; você, em independência. Eu nem sei o que realmente quer dizer com tudo isso.
—Não pense que eu também entendo tudo isso. Não quero que me veja como uma guia; isso seria outro tipo de prisão. Você tem que encontrar seu próprio caminho. E, se é de amigos que você precisa, aqui é o lugar certo para encontrá-los.
—Você seria minha amiga?
—O tempo vai responder a essa pergunta. Por ora, digamos que eu gostaria da sua amizade.
—Isso para mim é o suficiente. —Então estendi as mãos para ela; antes de apertar, ela olhou para a minha mão, olhou nos meus olhos, sorriu e só então apertou.
—Espero que você saiba o que isso significa —provocou Vicky.
—Não estou pensando muito sobre isso; estou só vivendo —respondi com sarcasmo.
Ela sorriu e disse:
—Boa resposta. Venha, quero te mostrar algo.
Ela me puxou pela mão e começamos a andar pelo Blackout Lab. Aquele lugar não parava de me surpreender. Depois de toda a frenesi da apresentação dela no palco, agora tudo estava quieto como antes. Ela andava no meio dos outros como uma completa desconhecida, algo que eu sabia ser exatamente o contrário.
Depois de um tempo, encontramos Drika e Stella. Vicky simplesmente disse às duas que nós daríamos uma volta; elas concordaram e marcaram de se ver mais tarde. Assim, finalmente, saímos do Blackout Lab.
Ela me guiou por vielas sombrias de um bairro consumido pelo abandono —mais arruinado que o meu, mais esquecido que qualquer outro que eu já vira. Mesmo familiarizado com o abandono das casas do meu bairro, ali o cenário era ainda mais cruel —quarteirões inteiros de prédios e moradias colapsadas, como se o tempo e o descaso tivessem apagado qualquer vestígio de vida. Então chegamos a uma viela, e ela tirou um frasco de spray de tinta rosa de um bolso interno do casaco e pichou “Mon Key” num muro.

—Sabe o que significa? —perguntou abruptamente.
Eu rapidamente me lembrei dos gritos no Blackout Lab; não havia entendido direito, mas agora, vendo escrito, consegui associá-lo aos gritos do show.
—Era o que eles gritavam lá no bar, certo?
—Sim. Mas sabe por quê? —perguntou ela novamente.
—Na verdade, eu nem havia entendido o que eles gritavam.
—É um grito por liberdade —explicou Vicky.
—Como assim? —perguntei, cada vez mais confuso.
—Você viu as ruas por onde passamos; só há destruição. Isso é proposital. Aqui era um dos bairros mais prósperos da cidade e foi berço de um novo pensamento, de uma visão de uma cidade mais justa para todos. Isso criou uma divisão entre a elite. Nenhum de nós sabe exatamente o que aconteceu, mas, em um dado momento, houve um conflito armado que devastou toda a cidade. No final, os atuais governantes venceram a disputa e determinaram que essa região seria a última a ser reconstruída —disse Vicky com grande pesar.
—Eu nunca tinha ouvido falar dessa história. Como você sabe de tudo isso?
—Os vencedores fizeram o possível para que essa história fosse enterrada com o tempo. O que restou são fragmentos esparsos, mantidos vivos pelas palavras de alguém que se esconde sob o nome Mon Key.

—E onde está essa pessoa agora?
—Ninguém sabe, mas mantemos viva sua memória, esperançosos de que isso faça diferença algum dia —disse Vicky, tristemente.
Não sabia o que pensar, muito menos o que dizer. Era muita informação e, para dizer a verdade, eu não sabia se acreditava em tudo aquilo; era tudo muito fantástico para mim. Mas senti uma conexão real com Vicky e entendi que ela queria compartilhar aquela história comigo. Aquele era o mundo dela, não o meu, e não me cabia fazer qualquer tipo de julgamento. Então, simplesmente, aceitei aquilo como verdade.
—É realmente incrível tudo isso —disse, meio sem jeito.
—Eu vou te contar mais depois, mas vamos com calma, senão vai fritar seu cérebro —disse, brincando.
Comecei a rir com ela, até que ouvimos zumbidos acima de nós. Ela olhou para cima e gritou imediatamente:
—Corre! —e saiu correndo à minha frente.
—O que foi? —Segui-a imediatamente.
—Teve uma coisa que não te contei.
—O que você não me contou?
—Pichar “Mon Key” é contra a lei.

Assim que ela falou isso, começamos a ouvir sirenes perto de nós. Continuamos a correr pelas vielas escuras daquele bairro, perseguidos atentamente pelos drones acima de nós. Entrei em desespero, pois nunca havia corrido da polícia.
—O que vamos fazer agora? —perguntei, em desespero.
—Me segue; eles não conhecem essas ruas como eu conheço.
Segui-a atentamente, e ela realmente conhecia cada beco e cada buraco naquele quarteirão. Até que, em um dado momento, ela sumiu da minha frente, e eu me vi perdido.
Soube depois que, na verdade, Drika puxara Vicky para dentro de um estreito corredor, bem escuro.

Elas me viram passar por ali, já que o corredor dava para uma viela bem maior. Quando cheguei à viela, fiquei perdido, pois não via mais Vicky e não sabia para que lado correr. O fato é que eu estava cercado e desorientado. Vicky me contou que elas ficaram observando minha situação do corredor escuro; segundo ela, não podiam fazer nada, pois todos seriam presos. Elas ficaram angustiadas com tudo, mas realmente não podiam me ajudar.

Sem ajuda dela, não demorou muito para a polícia me encontrar. Cercado pelos drones, momentos depois os policiais apareceram e me deram voz de prisão:
—Muito bem, garoto. O que vai ser? —disse o policial, me encarando com o cassetete nas mãos.
—Calma, senhor. Eu não quero problemas —disse, apavorado.
—Boa escolha. Mãos na parede, agora.
—Sim, senhor —gaguejei.
—Afaste mais as pernas, entendeu?
—Sim, senhor —respondi, cada vez mais assustado.
—Você sabia que não gostamos de pichadores? Principalmente daqueles que escrevem essa bobagem subversiva.
—Mas eu não pichei nada, senhor.
—O drone tem uma imagem sua em uma viela onde está escrito “Mon Key”. E achamos o spray que combina com a tinta do muro. Se não foi você, quem foi? —Nesse momento pensei em delatar Vicky, mas nunca fui um covarde; não seria agora. Mas também não podia assumir uma culpa que não era minha.
—Quem foi, eu não sei; mas não fui eu —disse com o que restava da minha coragem.
—Ah é? Então vai ser assim? Você vai me contar, garoto. Ah, vai sim! —Então ele me virou de frente, afastou-se um pouco e levantou o cassetete. Foi então que outra voz surgiu.
—Senhor, espera! —disse outro soldado.
—O que foi agora, Machado?
—Veja isto: ele é funcionário de médio escalão da InbraMetais.
—Deixa-me ver isso. —Ele pegou um aparelho que estava na mão do soldado, olhou por alguns instantes e perguntou: —Você tem certeza disso?
—Sim, senhor —confirmou o soldado com firmeza.
—Tá certo então. Bem, garoto, parece que você não é um vagabundo qualquer, mas a lei ainda é a lei. Vamos ver o que você tem a dizer ao delegado.

Então me algemaram e me conduziram até uma viatura. Tudo aquilo parecia um pesadelo terrível. Se, por um lado, trabalhar na fábrica havia me “salvado” de certa forma, por outro, essa situação poderia ser o estopim para eu perder meu emprego de vez.
Mais uma vez, eu estava me arriscando para salvar a pele de outras pessoas; mais uma vez, fui impulsivo, e agora remoía minhas escolhas, temendo pelo futuro. Dentro da viatura, pude ver o bairro novamente, agora sob o ponto de vista da história contada por Vicky. E realmente era possível ver vestígios da guerra que ela me narrara.
Estranhamente, foi só depois de me dar muito mal por causa dela que passei a acreditar ainda mais nela. Um paradoxo que me persegue até hoje.

Ela me contou que ela, Stella e Drika ficaram felizes com minha atitude diante dos policiais. Disseram que muitos, em meu lugar, as teriam delatado. Senti-me meio estúpido antes de experimentar qualquer tipo de orgulho pela minha atitude. A verdade é que eu não sabia se fizera aquelas coisas por alguma virtude minha ou por pura ingenuidade.
Mas, apesar de tudo, foi a partir daí que elas começaram a me chamar de amigo. E, no fundo, era tudo o que importava para mim.

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