Capítulo 5 – Fragmentos no Asfalto

Depois que fui detido, fui algemado e levado para onde estavam os demais policiais. Parecia que estava acontecendo uma grande operação naquela área. Vi muitas viaturas, e havia até outro veículo, aparentemente blindado, que parecia um carro-forte. Quando cheguei, um dos responsáveis pela operação se dirigiu aos policiais que me conduziam e disse:

— Pegaram mais um?

Me senti como um animal caçado.

— Sim, ele correu bastante, mas no final decidiu colaborar.

— Vamos colocá-lo com os outros e vamos embora. Já cumprimos a cota da semana.

— Esse aqui vai comigo e o Machado na viatura. Ele é “especial” — disse com ironia.

— Como assim, Ferreira? Que história é essa? — disse o outro policial, indignado.

— Ele é diferente desses outros vagabundos. Não é da mesma laia, entende?

Eu assistia a essa conversa atônito. Falavam de mim como se eu não estivesse ali, como se eu não importasse. Acho que eu e meus colegas temos mais consideração pelas máquinas que operamos na fábrica do que eles demonstraram ali por mim. A questão não era falta de respeito, mas a maneira de falar das pessoas como coisas que eles coletaram no asfalto e guardaram em um camburão.

— Você é quem sabe, mas se ele causar problemas a responsabilidade é sua.

Então Ferreira, o policial que me prendeu no beco, olhou pra mim, deu um sorriso malicioso e perguntou:

— Mas você não vai me dar nenhum trabalho, não é, garoto?

Eu senti um frio na espinha na hora, não apenas pela maneira como me olhava, mas também pela maneira como me perguntou aquilo. Sua pergunta era uma ameaça direta, a qual eu não iria ignorar.

— Claro que não. Eu não fiz nada, não tenho por que me preocupar — respondi, tentando esconder meu medo.

— Certo, vamos ver o que o delegado te diz — sentenciou.

Então, diferente dos outros que foram para o carro-forte, eu fui conduzido para uma viatura. Me colocaram sentado no banco de trás, algemado, com as mãos para trás; uma posição bem desconfortável, somada ao desconforto das algemas pressionando meus pulsos.

O comboio começou a andar. Eu estava em um dos últimos carros, e começamos a ir ainda mais para dentro daquele distrito. Eu achava que tinha visto um lugar abandonado e desolado onde estava antes, mas foi à medida que avançávamos pelo bairro que pude ver como tudo ficava cada vez pior.

Depois de uns 10 minutos, já estávamos em uma área que não tinha absolutamente nada, apenas ruínas. Não havia uma única construção em pé: quarteirões inteiros com apenas restos e entulhos. Eu olhava tudo aquilo completamente abismado com tamanha destruição, mas principalmente por morar na mesma cidade e desconhecer completamente essa situação.

Me revoltou também saber que vivemos em vários bairros amontoados, com pessoas morando em casas cada vez menores, em ruas e vielas cada vez mais apertadas, e saber que havia uma região da cidade com um espaço enorme para a construção de bairros inteiros, mas com tudo completamente desolado, destruído e abandonado.

Depois de tudo isso, fiquei com medo. Para onde eles estavam me levando, se a cada minuto que passava a situação do bairro piorava? Pensei que não seríamos levados a lugar nenhum. Pensamentos terríveis começaram a passar pela minha mente; então olhei para minha mão e vi novamente o endereço escrito pela Vicky. Nesse momento, sentimentos conflitantes me invadiram. De um lado, eu vivi momentos muito agradáveis no Blackout Lab e com a Vicky; porém, agora eu poderia estar completamente perdido. Veio um lamento e um arrependimento profundo dentro de mim, um medo desesperador.

Ao ponto de eu não resistir e soltar um suspiro profundo, que chamou a atenção dos policiais.

— O que foi, garoto? Tá passando mal?

— Não, tá tudo bem — menti.

— Se anima. Estamos chegando — disse com ironia.

Então, no absoluto nada, surgiu uma mansão enorme, muito iluminada. Porém, apesar de perceber que o lugar passava por uma manutenção permanente, era visível que o lugar também tinha sinais de destruição. A maior parte estava em condição razoável, mas era muito nítido que ali havia sido cenário de uma luta acirrada. Chegando mais próximo, o comboio se dividiu: o carro-forte e a maioria das viaturas viraram à direita e, aos poucos, foram sumindo na escuridão. Eu fui conduzido para a mansão: uma imponente e acabada mansão na qual eu encontraria o meu destino.

Assim que chegamos, os dois policiais que me conduziam saíram do carro e entraram na mansão, me deixando sozinho na viatura. O mundo parecia que andava em câmera lenta; o tempo que levaram para entrar no prédio pareceu uma eternidade. Enquanto isso, eu remoía dentro de mim o que diria ao tal delegado. Fiquei tão absorto em meus pensamentos que não percebi quando eles chegaram. Abriram a porta e me chamaram:

— Vem, garoto — disse num tom muito brando.

Eu saí do carro, e imediatamente o Ferreira, o policial que me capturou no beco, olhou e me disse:

— Vamos, vire-se. Deixa-me tirar isso de você — disse tão gentilmente que nem parecia a mesma pessoa das ameaças veladas de outrora.

Então retirou minhas algemas. Senti uma sensação extasiante de liberdade quando vi minhas mãos livres. Nesse momento, me lembrei da Vicky falando sobre liberdade e de como eu estava preso e não percebia.

Não tinha certeza se ainda tinha entendido o que ela realmente queria dizer, mas nunca tinha pensado como era bom ter minhas mãos livres — e só percebi isso quando as tive algemadas e, depois, libertas. Então deve haver muito mais coisa que acho natural, mas que, na verdade, é uma prisão.

— Venha, o delegado está te esperando — disse, com a cara fechada. Parecia que toda a satisfação que ele teve com a minha prisão de repente havia sumido.

Entramos, então, no prédio. E o cenário interno era a mesma contradição do lado de fora: contraste entre imponência e decadência, um departamento de polícia muito equipado — com computadores e grandes telões de monitoramento da área —, contrastando com o visível desgaste e as avarias da construção.

Andamos por aquele ambiente enorme; passamos inclusive por um grande salão que tinha um lustre clássico de cristal, imenso. Ele era o resumo dessa mansão: com um pouco da sua excelência ainda presente, mas com muitas partes faltando ou quebradas.

Finalmente chegamos à sala do delegado. Era uma sala enorme, com uma mesa de uma madeira nobre muito escura. Em sua mesa, três telas enormes de computador; atrás, uma estante de livros. Em outros pontos da sala, vários painéis com fotos.

Ouvi o barulho de uma outra porta se abrindo; então, finalmente, vi o delegado. Era um homem negro, muito alto e forte, com aparência de uns 50 anos. Estava muito bem-vestido — não entendo nada de roupa —, mas usava um terno cinza-claro como eu nunca tinha visto. Uma gravata brilhante, num vermelho escuro. Era calvo, olhos castanhos, não usava nenhuma barba. Então, finalmente, se dirigiu a mim.

— Olha ele aí… Sente-se, por favor. Ferreira, está dispensado — disse, firme e polidamente.

— Sim, senhor! — Ferreira respondeu e saiu imediatamente.

Assim que o policial saiu, o delegado deu a volta em sua mesa, sentou-se, pegou um jarro d’água, serviu dois copos; pegou um e empurrou o outro em minha direção e disse, suavemente:

— Então… O que um jovem como você está fazendo no meu bairro?

Até hoje eu não sei o que aconteceu comigo naquele momento. Depois de todo medo e desespero pelos quais passei, a resposta que me veio foi tão natural, mas, ao mesmo tempo, corajosa e estúpida.

— Você chama esses escombros de bairro? — me arrependi assim que as palavras saíram da minha boca.

Ele olhou para mim, suspirou fundo, bebeu a água — algo que achei prudente fazer também; assim eu ficava quieto. Então ele simplesmente disse:

— Responda à minha pergunta — disse rispidamente.

Dessa vez, fui mais prudente.

— Fui a um bar, precisava me distrair um pouco.

— Não tem bares onde você mora? Ou em qualquer outro lado da cidade? Como você disse, aqui só tem escombros.

— Queria algo diferente. Me recomendaram esse bar, então quis conhecer.

— E quem te recomendou um bar num lugar tão peculiar como este aqui?

Nesse momento, fiquei nervoso. Qualquer coisa que eu dissesse seria perigosa — ou pra mim, ou pra Vicky. Mas, com tudo que aconteceu até então, me perguntava se eu não deveria me proteger agora, em vez de sempre me prejudicar para proteger os outros. E, nesse pensar, ficou evidente que eu estava escondendo algo, e o delegado perguntou novamente:

— Vamos! Por que tanta demora para responder uma pergunta tão simples? O que você está escondendo?

— Não estou escondendo nada. É só que não foi ninguém importante… Eu estava tentando lembrar o nome dele.

— Alguém que não era importante te fez vir para cá? Quer que eu acredite nisso? — insistiu, mais enfático.

Mas isso era verdade. Eu não conhecia a Vicky quando ela me encontrou, então consegui ser convincente.

— Foi alguém que encontrei no ônibus. Foi uma conversa rápida. Ele chegou a dizer o nome, mas não me lembro agora.

— Certo. E você costuma seguir conselhos de pessoas estranhas assim, do nada? Não acha perigoso?

— Foi só uma indicação de um bar. Não imaginei que pudesse ser perigoso.

— E o que fazia naquele beco?

— Bom, uma mina me chamou, entende? — usei o machismo como disfarce.

— Sei… E por que correram, se não fizeram nada de errado?

— Como disse, não sou daqui e não conheço nada. Quando vi as sirenes, corri; acho que foi instinto.

Ele parou, olhou bem nos meus olhos, depois para minha postura na cadeira, passou a mão sobre a boca, se virou pra pegar alguma coisa e se virou bruscamente para mim. Colocou a lata de tinta spray usada pela Vicky com força sobre a mesa, fazendo barulho. Eu me assustei imediatamente, mas também minha feição entregava que eu já tinha visto aquela lata em algum momento.

— E isso aqui? Você já viu isso aqui? Foi isso que foi fazer naquele beco? Vou achar suas impressões digitais aqui? — disse, efusivamente.

Mas, para azar dele, a resposta para a última pergunta era não e, por isso, apesar da minha péssima reação inicial, eu consegui uma boa resposta.

— Pode testar. Como disse ao policial, eu não fiz nada. Essa lata não é minha e nunca esteve em minhas mãos.

— Certo, mas você sabe quem pichou, certo? Você viu! E não vai sair daqui até me dizer quem foi, entendeu? — vociferou.

— Eu nem sei do que você está falando. E esse bairro tá cheio de pichação para todos os lados. O que importa mais uma? — tentei argumentar.

— Ou você realmente é um completo tolo ou é muito bom em mentir — eu pensei comigo: certamente sou tolo, e estou descobrindo que posso mentir.

— No beco onde você estava, foi pichado “Mon Key”. Sabemos disso porque temos uma vigilância contínua por drones que, quando detectam qualquer tipo de anormalidade, relatam ao nosso sistema. Não temos a imagem de quem fez, mas sabemos que foi recente e que essa lata foi a responsável pela tinta. Então você tem a opção de começar a falar ou a de ir para a cadeia até se lembrar. Você escolhe.

Nesse momento, senti saudades de quando minha preocupação era perder o emprego. Estava com minha liberdade em risco — e não aquela liberdade de que falou a Vicky, mas realmente ser preso em uma cela. Não sabia o que pensar e o que fazer. E, quando ia começar a tentar dizer algo, a porta se abriu e entrou uma mulher, que eu não reconheci até que ela disse seu nome.

— Boa noite, delegado Freitas. Tudo bem com o senhor? Me chamo Stella Matias Avelar, e o senhor está interrogando meu cliente sem a minha presença. Posso entender como isso é possível?

O ar parecia ter sido retirado da sala, tanto pela reação do delegado quanto pela minha. Eu fiquei atônito e sem nenhuma reação.

— Me perdoe, doutora Stella, mas seu cliente não comunicou a necessidade de uma advogada.

— E o senhor mencionou que ele tinha esse direito?

O clima na sala pesou, porque nós dois sabíamos que não — e ela, provavelmente, também.

— O senhor sabe que meu cliente é um membro valioso da sociedade: tem um emprego estável e respeitável, moradia estabelecida, não tem antecedentes criminais. Minha pergunta para o senhor é: o que ele está fazendo aqui?

O descontentamento na face do delegado era visível, mas ele manteve a calma.

— Interessante, doutora Stella, que foi assim que começamos essa conversa: o que seu cliente, tão respeitável como está dizendo, está fazendo nessa região desolada da cidade.

— Se ele não cometeu nenhum crime, para mim ele pode até ir brincar nos escombros do seu bairro.

— Bom, ele fugiu de uma cena de crime, por isso foi detido.

— E ele cometeu algum crime?

— Ele pode ser uma testemunha ocular de um crime — ponderou o delegado.

— E ser testemunha é um crime? — desafiou Stella.

O delegado pensou e disse, pesadamente:

— Não, mas preciso colher o depoimento dele.

— Tá bom. Estarei presente durante esse depoimento.

O delegado percebeu que havia perdido; então, pelo telefone, falou com um escrivão e nos disse:

— Podem ir à sala do escrivão, e o rapaz pode dar seu depoimento.

— O senhor nos acompanha? — provocou Stella.

— Não será necessário. Basta o rapaz contar o que viu e será arquivado para investigação — disse, desanimado.

— Está certo, então. Algo mais em que podemos ajudar?

Ele simplesmente acenou com a mão para sairmos de sua sala.

Caminhamos até a sala do escrivão, onde contei uma história quase verdadeira e bem tediosa. Disse que, quando cheguei ao beco, não me chamou a atenção a pichação que o delegado mencionou, porque era mais uma entre tantas; mas que eu tinha chutado a lata de spray sem querer, e ela já estava no chão. E que, quando a polícia chegou, pensei estar em perigo e corri — não da polícia, mas de uma possível ameaça que fosse alvo da perseguição policial. Me perdi da garota com quem estava no beco, mas não sabia para onde ela tinha ido, nem me lembrava direito do nome dela.

Então saímos da delegacia. Stella não tinha me dito nada até então, mas dava para sentir o regozijo dela naquele momento; era palpável. Eu não sabia o que dizer para ela e, enquanto estivesse perto daquele lugar, nem achava seguro dizer nada.

Então começamos a ir em direção a um carro muito luxuoso, e ela então quebrou o silêncio:

— Você foi muito bem lá. Eu estava errada sobre você — disse isso e se dirigiu para o outro lado do carro, no banco do carona. Aí a porta de trás se abriu, e Vicky estava sentada no banco de trás.

Estava com uma roupa completamente diferente, muito mais formal e elegante, e usando uma boina na cabeça. E então ela me disse:

— Vem, entra, vamos embora daqui.

Eu estava cada vez mais perdido e confuso, mas atendi prontamente ao seu pedido. E então comecei a falar:

— Obrigado! Eu não sei o que está acontecendo, mas obrigado! — desabei.

— Na verdade, me desculpa. É tudo minha culpa. Mas nunca ia deixar que te prejudicassem.

Eu estava tão tenso, num misto de alívio e medo, que comecei a hiperventilar num ataque de ansiedade que eu nunca tinha tido.

— Stella, rápido, me dá algo forte aí pra ele beber.

Ela entregou um cantil para a Vicky, que me ajudou a beber. Era algo bem forte, e eu não tinha o costume de beber. Aquilo, muito mais do que me acalmar, me atordoou, e eu apaguei. Minha última lembrança era a Vicky me dizendo:

— Fica calmo. Vai ficar tudo bem!

É algo que ainda estou esperando que aconteça.


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