Aquelas frases ecoavam na minha cabeça como um flashback fragmentado, impossível de compreender:
“Vai, anda rápido… O que é que está acontecendo com ele? Não sei, mas ele tá passando mal. O que vocês deram pra ele beber? Nem era tão forte… O que a gente faz agora? Segue com o plano. Você vai levá-lo pra lá. Sim, sim, vamos pra lá.”
Essas vozes se repetiam, distorcidas, até que uma dor de cabeça terrível me arrancou do torpor. Meus olhos ardiam, pesados, e só aos poucos fui recuperando a consciência. Quando finalmente despertei por completo, percebi que estava deitado em uma cama de casal enorme. Olhei para os lados: não havia ninguém.

Aos poucos, comecei a assimilar o ambiente. O quarto era maior do que o meu apartamento inteiro. O teto, altíssimo. As paredes, em tons em vermelho pastel, estavam cobertas por inúmeros quadros. Havia uma penteadeira, criados-mudos ao lado da cama e uma cortina gigantesca, talvez com seis metros de altura.
Quando olhei para mim, levei um susto: eu vestia um pijama azul, brilhante, de um tecido que nunca tinha visto. Mais tarde, Vicky me explicaria que era seda. Coloquei os pés no chão e senti um tapete tão macio que parecia impossível ser real.
Eu não fazia ideia de como tinha ido parar ali. Não lembrava onde estavam minhas roupas, nem quem as havia tirado. A última coisa que me vinha à mente era Stella me conduzindo até um carro. Vicky estava lá dentro. Ela me entregou algo para beber… e depois, nada. Escuridão.

Decidi abrir as cortinas, imaginando encontrar uma janela que me desse alguma pista sobre onde eu estava. Mas, ao puxá-las, me deparei com algo inesperado: não era uma janela, e sim uma porta. Um portal imenso de vidro e madeira que dava para uma varanda.
Abri a porta e saí. A paisagem diante de mim era tão absurda que me deu um frio na espinha. Árvores, pastos, plantações, animais e um grande lago. Uma vista natural, vasta, silenciosa. E aquilo me aterrorizou profundamente — porque eu nunca tinha visto nada parecido antes. Isso só podia significar que eu estava muito, muito longe de casa.

Voltei para dentro do quarto, tentando manter a calma. Descobri um banheiro luxuoso, maior do que qualquer coisa que eu já tivesse usado. Mas minhas roupas continuavam desaparecidas. A angústia apertava o peito.
Respirei fundo, calcei um dos chinelos que encontrei e decidi sair. Ao abrir a porta, fui tomado por outra surpresa: a casa parecia um castelo. Um lugar enorme, imponente, quase intimidador. Eu estava, ao que tudo indicava, no segundo andar.

O corredor era longo, decorado com obras de arte que eu jamais teria coragem de tocar. Caminhei por alguns minutos até encontrar uma escadaria que levava ao hall principal.
Desci.

No hall, finalmente encontrei alguém. Um senhor elegantemente vestido, postura impecável, expressão séria e confiante. Ele caminhou até mim com naturalidade, como se já esperasse minha presença.
— Ah, o senhor acordou. Sra. Morelli o aguarda na sala de jantar. Por favor, acompanhe-me.

O homem caminhava à minha frente com passos firmes, e eu o seguia ainda atordoado, tentando absorver a grandiosidade daquela casa. Nunca imaginei que alguém pudesse morar em um lugar assim. Quando estive na delegacia, aquilo já me parecera uma mansão — mas aquela residência fazia a delegacia caber dentro dela algumas vezes. Era infinitamente maior, mais luxuosa, mais imponente.
Seguimos por corredores amplos, iluminados por janelas altas e decorados com obras de arte que eu jamais teria coragem de tocar. Depois de alguns minutos, ele me conduziu até uma sala de jantar.

Lá dentro, conversando animadamente, estavam Vicky, Drika e Stella. Na cabeceira da mesa, um homem de meia-idade, cabelos grisalhos, óculos redondos e um cavanhaque impecavelmente aparado. Vestia um terno elegante, perfeitamente ajustado ao corpo, e falava com entusiasmo enquanto as três o ouviam.
Assim que entramos, o homem que me guiava anunciou:
— Senhor Morelli, aqui está o seu convidado.
As três mulheres estavam impecavelmente vestidas. Vicky usava a mesma roupa do dia anterior, Stella também, já a Drika trajava algo que eu não tinha visto antes: um conjunto branco, adornado por um detalhe que lembrava pele apenas na região do pescoço. Todas pareciam prontas para um evento formal. E eu… de pijama.

Elas me olharam com curiosidade, mas sorriram com gentileza. Ainda assim, senti o rosto esquentar de vergonha.
O homem na cabeceira rompeu o silêncio:
— Seja bem-vindo, meu jovem. Venha aproveitar o desjejum conosco e desfrutar da companhia dessas belas garotas.
Olhei para as três. Elas pareciam se divertir com a minha confusão. Vicky fez um gesto delicado, convidando-me a sentar ao lado dela. Obedeci, ainda sem saber onde colocar as mãos.

Mais uma vez, o homem — que eu supunha ser o dono da casa — tomou a palavra:
— Minha sobrinha me contou como você foi corajoso na noite passada. Apesar dos apuros, enfrentou tudo como um homem e protegeu-a e suas amigas. Saiba que estou agradecido. E, claro, recompensarei você de acordo. Não precisa se preocupar com a polícia; resolvemos tudo esta manhã, enquanto você tinha um descanso merecido.
Eu olhava de um para outro, cada vez mais confuso. Não sabia o que dizer, nem como agir. Meu instinto foi buscar o olhar de Vicky. Ela me encarou com ternura e disse:
— Me perdoe pelo que aconteceu ontem. Eu não deveria ter te envolvido nisso. Você não sabe nada sobre aquele lugar, nem sobre o que escrevi naquela parede. Mostrar as coisas daquela forma foi errado. Eu não sabia que eles estavam em operação de vigília… e acabei te colocando em risco sem necessidade.
Respirei fundo. A confusão, o medo, a sensação de estar completamente deslocado… tudo veio à tona.
— Você não me explicou o que tudo isso significava — respondi. — Mas agora eu preciso saber. Eu não sei onde estou, nem quem ele é. Ontem eu tive muito medo. Vocês falam da minha coragem, mas faltou muito pouco para eu entregar tudo, porque eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Eu saí para ir a um bar e acabei numa delegacia, no meio de ruínas. Eu preciso entender o que está acontecendo.
O silêncio que se seguiu pareceu pesar sobre a mesa inteira.
Então, o dono da casa, depois de alguns instantes de um silêncio constrangedor, me disse:
— Meu jovem, a coragem de um homem não está em não sentir medo, mas sim em, mesmo na presença dele, agir com força e coragem, como você fez. Já vi muitos outros, que sabiam onde estavam se metendo, se acovardavam ao primeiro sinal de ameaça. Isso fala mais da índole deles do que da ameaça que presenciaram. Você tem o meu respeito e o das garotas aqui, porque mostrou lealdade, mesmo sem saber o porquê disso tudo.

As palavras dele me impactaram de uma forma como nunca. Ele falava com um misto de firmeza e ternura. Tudo o que dizia transmitia uma dignidade e nobreza que eu nunca tinha visto antes. E percebi a reverência das garotas, que sempre têm um jeito mais descontraído; na presença dele pareciam mais contidas. Fiquei sem palavras e sem coragem para continuar, então, em silêncio, comecei a comer a refeição que estava posta à minha frente.
Minha atitude pareceu deixar todos sem reação também, e permaneceram em silêncio me vendo comer. Foi interessante ver, pela primeira vez, a Stella calada, sem me criticar ou fazer alguma piada. Eu estava com muita fome, e bastou começar a comer para não conseguir dar atenção a mais nada — principalmente porque nunca tinha comido algo tão gostoso. Certamente meus modos à mesa, peculiares, chamaram a atenção de todos, que me observavam como se eu estivesse fazendo uma apresentação performática.

Se fosse outra situação, eu teria ficado completamente constrangido, mas depois de tudo o que passei, não estava me importando mais com nada. Até que Vicky tocou meu ombro e cochichou no meu ouvido:
— Preciso falar com você a sós…
Aquilo me pegou desprevenido. Eu ainda devorava a comida com tamanha ferocidade que demorei alguns instantes para terminar o que estava comendo, para então esboçar uma reação. Terminei de comer, peguei um guardanapo na mesa, limpei meu rosto e encarei meu anfitrião, que parecia estarrecido com minha refeição e meu modo de comer. Olhei na direção da Drika e da Stella, que estavam do outro lado da mesa, e a expressão de espanto era a mesma. Então, finalmente, disse:

— Maravilhoso, senhor Morelli. A comida está realmente deliciosa. Muito obrigado por tudo. Preciso agora conversar com a Vicky, se o senhor não se importar.
— Claro, meu jovem. Vou pedir ao Arnaldo para conduzi-los a uma das salas de estar, assim poderão ficar à vontade.
— Ah! Outra coisa… adorei o pijama, mas onde estão minhas roupas?
— Bom, ontem você passou muito mal e acabou vomitando nelas, então colocamos para lavar — respondeu Vicky.
— Não se preocupe com isso. Vamos arrumar novas roupas para você enquanto as suas não estiverem limpas e secas — completou o Sr. Morelli.
— Obrigado, Sr. Morelli. Não só pelas roupas, mas pela estadia e pela comida.
Levantei-me da mesa e lancei um olhar para a Vicky.
— Vamos, então?
Percebi a surpresa dela com a minha atitude, já que normalmente era ela quem tomava a iniciativa. Ela me olhava com um misto de curiosidade e receio. Então se levantou, olhou para as amigas do outro lado da mesa, que fizeram uma expressão de incerteza, como quem diz “estranho, não?”. Ela fez uma reverência ao Sr. Morelli, olhou para mim sem dizer nada e foi na direção da porta de saída da sala de jantar. Lá estava Arnaldo, nos esperando para nos conduzir à tal sala de estar.

Segui os dois, caminhando novamente por aquela mansão inacreditável, até que finalmente chegamos. Arnaldo abriu a porta e nos conduziu para o cômodo. Era uma sala bem ampla, com um núcleo formado por três sofás de madeira e uma mesa de centro de frente para uma lareira.

Vicky se sentou no sofá que ficava de frente, e eu me sentei ao seu lado. Ela ficou me observando por alguns instantes, até que finalmente rompeu o silêncio:
— Imagino que deve ter muitas perguntas, não é?
— Sim, muitas. Para começar: onde nós estamos?
— Chama-se Château de Liberté. Um refúgio, um lugar de paz.
— Por que estamos aqui?
— Aqui é um lugar seguro. Achei que era apropriado te trazer para cá depois de tudo o que houve ontem.

— Tá, agora me diz a verdade: quem você é realmente? Porque certamente não é a garota da periferia que eu pensava que fosse, andando como uma punk, de ônibus urbano na madrugada, indo a bares, tocando numa banda de punk rock. Essa não é realmente você.
— Essa sou eu sim. Pelo menos uma face da minha vida é assim. A mais importante, eu diria.
— Mais importante?!?!?! Olha ao seu redor, olha para suas roupas agora! Isso aqui é quem você é de fato.
— Sim, eu sou rica. De uma família que já foi uma das mais poderosas da cidade, ficamos do lado perdedor da guerra. Quando fizemos a trégua, conseguimos um salvo-conduto para nos retirarmos em paz e proteger o que sobrou dos nossos bens e da nossa família. Em troca, renunciamos a todo o distrito e a todas as pessoas que lá moravam e que lutaram ao nosso lado. Foi um ato de sobrevivência, mas também de covardia. Covardia essa que custou a vida de milhares de pessoas que jamais puderam retomar suas vidas normalmente. Você viu o distrito em ruínas e viu a casa da minha família — a única que ficou de pé — e que permanece como símbolo da nossa derrota, sendo agora usada para oprimir aqueles que ainda insistem em resistir.
— A delegacia era sua casa? — disse, atônito.
— Nunca foi minha casa, porque quando nasci já estávamos no exílio. Aqui onde estamos é a minha casa, onde nasci e cresci.
— Então o Sr. Morelli…
— É meu tio. Meus pais também moram aqui, mas não estão no momento. Meu tio, por ser o mais velho, é o líder da família.

— Entendi. O que eu não entendi é o que você quer comigo!
— No começo eu também não tinha certeza. A verdade é que estamos sempre recrutando pessoas para nossa causa.
— Causa? Me explica melhor isso.
— Como disse, minha família foi o lado perdedor da guerra. Há um custo enorme ao povo que nos apoiou. Com o passar dos anos, surgiu um movimento insurgente, sob a liderança de alguém que se autodenomina Mon Key. Não sabemos de quem se trata, quantos são, o que querem ou planejam, mas eu acredito que possamos ajudar de alguma maneira. Como uma forma de redimir a minha família.
— Tudo isso é porque você se sente culpada pelos atos dos seus pais? — indaguei, indignado.
— Dos meus avós, na verdade — disse Vicky, pesarosa.
— E o que pretende? — Minha curiosidade era genuína.
— Me infiltrar no movimento, conhecer os líderes. Me juntar a eles.
— Você está ouvindo o que está dizendo? Olha ao redor, veja essa sala. Isso aqui vale mais do que o bairro onde eu moro. Entendo a culpa que sente — e acho que, no fundo, você merece senti-la — mas arrastar outras pessoas para seus ajustes de contas, só para se sentir melhor, só mostra como sua família usa os outros para os próprios objetivos.
Foi um desabafo que saiu tão naturalmente que me pegou de surpresa mais do que a Vicky.

— Eu sei…
A resposta dela me deixou paralisado. Então ela continuou:
— Mas essa insurreição é real. Veio do povo, que está insatisfeito com a ordem das coisas. Eu nunca tinha recrutado ninguém de outro distrito, mas quando te vi, percebi que a opressão não é só no distrito proibido — está por toda a cidade. Eu vi em você a esperança de uma mudança total para todos. Mas não considerei o custo para alguém como você, que, mesmo tendo uma vida com dificuldades, ainda assim é uma vida comum. Eu te peço desculpas por ter te envolvido nisso.
Vi que as desculpas eram sinceras, mas percebi que o perigo também era real. Talvez minha vida não voltasse mais à normalidade. Na verdade, meu maior medo era que eu já tivesse atravessado essa fronteira. Ela ficou imóvel na minha frente, me olhando curiosa, esperando uma reação minha, mas eu não sabia por onde começar. Estava começando a sentir falta da minha vida “com algumas dificuldades”, como ela dissera antes. A verdade é que percebi que estava perdendo o controle da minha vida, por uma busca que nem ela sabia bem o que era.
Então respondi a única coisa que parecia racional e responsável com meu futuro:

— Pode contar comigo!!!
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